CALENDÁRIO DE VACINAÇÃO Vs. CALENDÁRIO DE SOCIALIZAÇÃO: MUTUAMENTE EXCLUDENTES?

Existe entre médicos veterinários, tutores e adestradores uma grande polêmica acerca do risco de socializar filhotes que ainda não receberam a última dose de vacina. É muito comum encontrarmos pessoas sugerindo que o filhote participe de aulas em grupo mesmo antes da 14-16a semana de vida, e ao mesmo tempo, muitos médicos veterinários se opondo à qualquer contato com outros animais e ambientes antes da última dose da vacina (que geralmente ocorre entre a 14 – 16a semana de vida) devido ao risco de contrair doenças infecciosas.

O questionamento é real já que existem riscos e vantagens em ambas situações. Afinal, os filhotes de cão e gato precisam ter todas as vacinas antes de entrarem em contato com outros animais?

* Este artigo escrito pela médica veterinária Carolina Rocha. Caso queira citar ou divulga-lo, por favor, entre em contato por e-mail antes de faze-lo. Pedimos que publique na integra, sem altera-lo ou mudar a autoria. Plágio é crime! *

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Mesmo antes dos famosos experimentos de Konrad Lorenz com gansos (Lorenz, K., 1935), já existiam muitos relatos, inclusive com formigas, acerca dos fenômenos de imprinting e período sensível (Fielde, A., 1904). Atualmente inúmeros estudos já comprovaram que animais humanos e não humanos passam por um período de maior sensibilidade para estímulos exógenos, um período que é extremamente importante para o desenvolvimento global do indivíduo, seja qual for sua espécie.

Por conseguinte há uma correlação entre este período e o desenvolvimento do sistema nervoso central, em especial no que se refere às vias sensitivas, límbicas e ao córtex cerebral, mas não vou entrar nestes detalhes aqui (quem sabe mais para frente).

Tratando-se de cães e gatos, esta janela de oportunidade ocorre entre a terceira e décima segunda semana de vida (alguns autores chegam a dezesseis semanas) para cães, e entre a terceira e sétima semana (novamente, há autores que defendem o limite das nove semanas) para gatos. Note que este período é muito mais curto para os gatos do que para os cães, supondo os maiores limites da literatura: 7 versus 14 semanas.

Durante este período de socialização os filhotes devem ser expostos ao máximo de estímulos possível: pessoas, animais, barulhos, ambientes, cheiros, movimentos, objetos, etc. Ressaltando aqui que este contato com novos estímulos deve ser feito com MUITA cautela e segurança para não estimular demasiadamente o animal, fazendo-o sentir medo, tentar fugir ou evitar a situação – o que poderia sim ocasionar em um trauma. Logo, este processo deve ser acompanhado por um profissional que possa compreender com excelência o comportamento do animal.

É neste período que o filhote irá se adaptar à novas pessoas (altas, baixas, magras, com mais curvas, com capacete, com mochila nas costas, com bengala, bebês, crianças, idosos, etc), novos sons (trovões, bexigas estourando, música, os “adorados” fogos de artifício, aspiradores, etc), novos ambientes (piso liso, molhado, escorregadio, quente, frio, com muita luz, escuro, com muita gente, com muita movimentação, etc), novos objetos (vassouras, bolas, skates, bicicletas, motos, etc).

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Um animal que passou por uma socialização incompleta ou imprópria, como por exemplo, animais que foram mantidos “isolados do mundo” – em um consultório veterinário, em um galpão, em um cômodo da casa, sem contato com outros cães, pessoas ou barulhos – ou que passaram por situações traumáticas neste período têm um maior risco de apresentar problemas comportamentais no futuro, como , por exemplo medo e agressividade.

No entanto é exatamente no período em que o animal precisa estar em contato com outros animais e estímulos, que também está mais vulnerável à agentes transmissores de doenças: o período em que o animal ainda está tomando suas primeiras vacinas.

Ao nascerem, os filhotes de cães e gatos saem de um ambiente quase estéril, que é o útero, para um ambiente rico em microorganismos. Neste momento eles contam apenas com as imunoglobulinas transmitidas pela mãe durante o período intra-uterino (através da transferência transplacentária) e, a partir das primeiras mamadas, através da ingestão do colostro (o leite produzido pela mãe nas primeiras horas após o parto que contém especialmente imunoglobulinas tipo G e pode ser absorvido pelo filhote em uma janela de poucas horas após o nascimento).

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Segundo Tizard (1998), ocorre que, mesmo recebendo essa carga de proteção imunológica da mãe (e isto, supondo que a mãe tenha sido corretamente vacinada) os filhotes continuam vulneráveis à diversos agentes infecciosos, como o parvovírus, morbilivirus (agente etiológico da cinomose), coronavírus canino e etc. Devido às características da placenta endoteliocorial dos cães e gatos, apenas uma pequena quantidade de ImunoglobulinasG é transferida para o filhote, sendo a maior parte dela então adquirida através do colostro.

Em gatos, em especial, a transferência transplacentária de imunoglobulinas tipo G é quase nula, portanto a ingestão de colostro é indispensável para que pelo menos o mínimo seja absorvido. Se esta não ocorre é como se o animal não tivesse qualquer resposta imune pronta para agentes patológicos.

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Porém, é importante lembrar que dentre as doenças protegidas por vacinas, a mais grave, que tem transmissão rápida e que pode deixar muitas sequelas nos poucos animais que sobrevivem é a cinomose (causada pelo morbilivírus). O antígeno para esta doença está exatamente na vacina V10/V11, que é aplicada entre a 6-9a semana de vida.

(Além disso, de acordo com a palestra ministrada em março de 2013 no I CICSA pela Professora Titular da FMVZ USP,  Mitika Hagiwara, existe uma complexa questão relacionada à meia vida das imunoglobulinas no organismo do filhote, tanto as transferidas pela mãe, quanto as adquiridas pela vacina, e também da dose de vacinação para animais de diferentes portes. Mas não vou entrar agora nestes detalhes.)

Ocorre que, apesar do sistema imune do filhote ainda estar se desenvolvendo, se ele nasceu de uma mãe adequadamente imunizada, ingeriu colostro adequadamente nas primeiras 24 horas pós parto (mas especialmente até 6 horas após o nascimento, que em geral é o período de maior permeabilidade das células intestinais), recebeu a primeira dose de vacinação (recomenda-se a primeira dose de vacinação na sexta semana) e é bem cuidado (higiene, alimentação, bem estar, etc), a sua chance de uma infecção é significativamente pequena, se comparada à chances de morte, abandono ou quebra do vínculo tutor-animal devido à problemas comportamentais.

Um ponto importante neste momento é ressaltar que a maior causa de eutanásia e abandono de animais é exatamente devido à problemas comportamentais (Sigler, 1991; Anderson & Foster, 1995; Miller et al. 1996). Nos Estados Unidos calcula-se que cerca de 15 a 20 milhões de animais são eutanaziados por ano e, diferentemente do que o senso comum diria, que ocorreria por doenças infecciosas, a grande maioria deles é devido à problemas comportamentais (agressividade, vocalização excessiva, eliminação inadequada, destruição de objetos, etc).

Logo, a socialização de filhotes quando dentro do período sensível (para cães, entre 3 a 12-14 semanas, e gatos, entre 2 e 7 semanas) é extremamente importante para o desenvolvimento do repertório comportamental dos filhotes, auxiliando fortemente na prevenção de problemas comportamentais dos animais. Podemos falar que seria quase como uma vacina contra problemas comportamentais (ressaltando que não é por que um animal teve uma boa socialização que ele não apresentará problemas comportamentais, mas se ele foi bem socializado terá uma chance muito menor de vir a ter problemas comportamentais).

Portanto, se o processo de socialização for efetuado APENAS com cães que: receberam imunidade passiva da mãe, recebem cuidados adequados (alimentação especialmente), não passeiam pela rua, tiveram contato apenas com animais que têm vacinações e vermifugação em dia, foram avaliados e liberados por um médico veterinário, não apresentam sinais de doença e receberam a primeira dose de vacinação (V10/11) e vermifugação pelo menos 7 dias antes do início das aulas, os riscos de infecção são muito baixos.

Cabe ao médico veterinário e ao responsável técnico pelo local de socialização os cuidados quanto à admissão de animais às aulas. Apenas os animais que foram aprovados em todos os quesitos acima poderão iniciar suas aulas de socialização. A supervisão das vacinações subsequentes, reavaliação física a cada encontro e exame parasitológico para avaliação da resposta da droga anti-parasitária também devem ser feitos por um médico-veterinário para garantir a segurança de todos os animais e seres humanos (relacionando-se ao risco de zoonoses).

Além disso, não entrei nestes detalhes aqui, mas os cuidados relacionados ao desenvolvimento comportamental (a graduação dos estímulos, os exercícios propostos, o tempo e frequência de apresentação, as aproximações e diversas medidas de prevenção que podem ser efetuadas durante a socialização) e à limpeza e desinfecção da área em que estes filhotes ficarão, são extremamente importantes e devem ser supervisionadas por um médico veterinário, que recebeu treinamento para isso (aguardem por um artigo sobre estes detalhes mais para o futuro).

Finalmente fica evidente a importância do acompanhamento médico veterinário, seja em relação ao calendário de vacinações, vermifugação, saúde geral, exames físicos, seja em relação ao acompanhamento do desenvolvimento comportamental do filhote, que irá influenciar diretamente na saúde física e mental deste.

Fontes:

* Fielde, A. M.(1904) Biol. 7.

* Lorenz, K.(1935) Ornithol. 83.

* Miller DM, Stats SR, Partlo BS, et al. Factors associated with the decision to surrender a pet to an animal shelter. J Am Vet Med Assoc 1996;209:738- 742

* Scott, J. P. (1962). Science, 138.

* Tizard, Ian. (2002). Imunologia veterinária. Ed. ROCA.

* http://animalbehaviour.net/Imprinting.htm

Fonte de imagens:

Texto escrito pela médica veterinária Carolina Rocha. Direitos reservados.

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