“Meu pet é meu filho sim, e daí?” O que a ciência tem a dizer.

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Defendemos com unhas e dentes esse papel de pais dos nossos animais: conversas, passeios, roupinhas, cuidados… E quantas vezes não somos criticados por vê-los como filhos? Afinal, quão parecida é a relação entre humanos e seus pets e a relação entre pais e filhos humanos? Até agora essa complexa questão ainda havia sido pouco investigada. Até agora. Pode ficar tranquilo, se você faz isso, você é apenas humano: há indícios de que existem bases neurológicas para você amar seu cachorro como seu filho.

 

Um pequeno, porém importante estudo científico, publicado em outubro de 2014 pela revista científica de acesso livre Plos One, acendeu mais uma chama sobre esse quebra-cabeça, indicando que talvez essas relações de pais-filhos humanos e pais-pet sejam mais parecidas e normais do que pensávamos.

O que a gente já sabia:

A prática de adotar animais provavelmente surgiu como consequência natural da própria domesticação das espécies, inclusive o papel dos cachorros como animais de companhia, os pets, ascendeu háaproximadamente 18 – 32 mil anos atrás (1). A professora de antropologia biológica da Pennsylvania State Unniversity, Pat Shipmam (2), inclusive, afirma que essa seria a quarta característica que diferencia os Homo sapiens dos outros mamíferos. Além da fabricação de ferramentas, do simbolismo e da domesticação de plantas e animais, a capacidade de se conectar com outras espécies animais teria sido um traço exclusivo e determinante para o desenvolvimento da linhagem humana.

Os relacionamentos entre pais-crianças e humanos-animais já haviam sido analisados pela ciência, em relação ao tema esta publicação de 2014 não é inédita. A maioria dos estudos anteriores, porém, investigaram esta relação homem-animal através do ponto de vista etológico da teoria do apego, formulada por Bowlby. Para a sobrevivência dos filhos, tanto nas espécies humanas quanto não humanas, é essencial que os filhos desenvolvam um laço afetivo muito forte com seu cuidador primário (geralmente a mãe). A separação dessa figura de apego, então, ativa o sistema de apego do filho, com o objetivo de reestabelecer e manter proximidade com esse indíviduo específico. Essa teoria explica o papel do relacionamento formado entre o bebê e cuidador no desenvolvimento, conceito posteriormente estendido da figura materna para relacionamentos entre adultos-adultos, laços amorosos e entre iguais. Apego seria, então, o laço formado entre a criança e o cuidador para garantia segurança e sobrevivência.

Um estudo recente de Kurdek (5), por exemplo, avaliou a que extensão e sob quais condições os humanos se voltavam para seus cães em momentos de estresse emocional. Em uma situação de luto, divórcio, separação… para quem as pessoas se voltam? Será que para os seus pets? Para a maioria dos 975 humanos participantes dessa pesquisa, o cachorro realmente ocupava essa figura de segurança e conforto, a figura de apego para qual eles se voltavam em um momento difícil. Além disso, era mais comum buscarem por seus cães do que por suas mães, pais, irmãos, irmãs, melhores amigos e crianças. Menos comum, porém, buscarem por seus cães do que por seus parceiros amorosos, o cônjuges vinham antes que os cachorros. Como já era esperado, algumas características dos humanos e dos animais estavam relacionadas à essa maior busca pelos animais: homens, viúvos, os mais envolvidos nos cuidados dos animais e as pessoas mais fechadas e contidas, por exemplo, tenderam a se voltar mais aos cachorros.

Também dentro do paradigma do apego, Horn et al (6), testaram a importância da base segura representada pelo humano para um cachorro, e os efeitos desta base segura no desenvolvimento cognitivo do animal. Através de um exercício de resolução de problemas com brinquedos, testaram se a presença ou não presença do tutor influenciaria a motivação dos cachorros em manipular brinquedos interativos. A hipótese era de que se o tutor realmente significasse uma base segura para o cachorro, estes teriam uma performance pior na ausência do tutor, já que sem a base segura o desenvolvimento tende a ser comprometido.

Então foram efetuados 2 experimentos, com as seguintes condições:

Experimento 1 com 3 situações experimentais: participaram 22 cachorros
      • Tutor ausente: o tutor não está presente na sala experimental durante o teste.
      • Tutor silencioso: o tutor está presente na sala experimental durante o teste, mas se mantém em silêncio.
      • Tutor encorajador: o tutor está presente na sala experimental durante o teste e está encorajando o cachorro verbalmente.
Experimento 2 com 4 situações experimentais: participaram 26 cachorros
      • As mesmas 3 situações do experimento 1.
      • Um humano não conhecido pelo cachorro e do mesmo gênero que o dono estava presente na sala experimental durante o teste e se mantinha em silêncio.

E o que os pesquisadores encontraram? Que o tempo que o cachorro se mantinha entretido com o brinquedo era maior quando o tutor estava presente, independentemente do comportamento do tutor (em silêncio ou encorajando). A presença do humano desconhecido, porém, não aumentou o tempo de interação. Foi efetuado também um teste de nível de estresse de separação do cachorro, mas não foram encontradas correlações com a duração da interação do pet com o brinquedo. Logo, este estudo trouxe evidências de que sim, existe esse efeito de base segura entre cães e humanos também, não só para crianças e seus pais. Demais, não? Ou seja, o desenvolvimento e manutenção da relação entre os animais e humanos também é associado às emoções de segurança, proteção, e sobrevivência.

Além destes resultados comportamentais, medidas hormonais e fisiológicas também indicam essa semelhança entre o relacionamento humano-humano e humano-animal. Sabemos que em situações de alto e baixo estresse relacionados à presença da mãe ou do tutor, alterações hormonais e fisiológicas, tanto de cães quanto de crianças, são similares (7,8); os mesmos mecanismos neurobiológicos relacionados ao vínculo emocional entre humano-humano são presentes na relação humano-cão; e durante e após interações positivas, tanto humanos quanto os cães têm a ocitocina, beta-endorfinas, prolactina, dopamina e beta-feniletilamina aumentadas (9,10,11), substâncias relacionadas ao bem estar.

 

 

 

E o que que esse novo estudo fez de tão diferente?

O tal estudo quentinho, publicado no começo de outubro de 2014 por pesquisadores do Massachusetts General Hospital e da Harvard University, comparou, através de exames de ressonância magnética funcional a reação cerebral gerada quando mulheres viam fotos de seu filho e de se cachorro – avaliou o relacionamento entre mães e filhos humanos, e mães e seus cachorros. Nunca se havia investigado esse tipo de relacionamento através de exames de imagem. Ele une as vantagens de duas técnicas, do PET Scan e a ressonância magnética, pois indica os níveis de ativação de estruturas cerebrais específicas através da detecção de mudanças nos níveis de fluxo de sangue e oxigênio no cérebro. A técnica começou a ser utilizada para descobrir as distribuições das regiões cerebrais responsáveis por algumas das mais importantes habilidades cognitivas, como atenção, percepção, processamento de linguagem e memória. Ela já havia sido utilizada, por exemplo, para investigar que áreas do cérebro são ativadas quando humanos viam fotos da face de seus parceiros ou filhos, quando comparado com fotos de outras faces desconhecidas, porém, esta metodologia ainda não havia sido utilizada para comparar o laço entre mãe-filho humano e humano-pet.

Ok, então me passa mais detalhes do estudo?

 

Amostra:
      • Tamanho da amostra: 14 mulheres que tinham pelo menos 1 filho humano entre 2 e 10 anos, e um cachorro há pelo menos 2 anos.
      • Idade das mulheres: entre 22 e 45 anos, média de 38,4 anos.

* Diversos testes psicológicos também foram efetuados para analisar a amostra do experimento.

O estudo foi efetuado em duas fases:
  • Primeira fase: visita na moradia

Tanto a criança quanto o cão foram fotografados na casa da mulher participante e diversos questionários psicológicos eram completados.

  • Segunda fase: ressonância magnética junto à apresentação das fotos

As mulheres passaram pelo exame de ressonância magnética funcional enquanto varias fotos de crianças e cachorros eram apresentadas a elas – havia fotografias do próprio filho e do próprio cão, que haviam sido tiradas em suas próprias casas na primeira fase, e também fotos de crianças e cachorros desconhecidos. Imediatamente após o exame de imagem elas recebiam um teste com 11 questões para que reconhecessem as fotos, verificando se elas haviam mesmo prestado atenção durante a apresentação das fotos. Além disso, era pedido que elas dessem notas às fotos de cada categoria (criança/cachorro) de acordo com o valor emocional que sentiam com cada uma.

Meu pet é meu filho

 

 

E quais foram os resultados disso tudo?

Vamos à lista:

      • As mesmas regiões cerebrais que foram ativadas quando uma mãe via a foto do seu filho humano, também foram ativadas quando ela via a foto do seu filho animal cachorro. Essas áreas são relacionadas a recompensa, emoção, afiliação, processamento visual e interação social.
      • Uma região importante para a formação do laço emocional, a substância negra/área tegumentar ventral, foi ativada apenas quando a mãe via a foto de seu próprio filho.
      • O giro fusiforme, envolvido no reconhecimento facial e em outras funções de processamento visual, apresentou maior atividade quando foram apresentadas fotos do próprio cachorro do que da criança.
      • O núcleo accumbens, região muito importante para afiliação, tanto para animais quanto para humanos, mostrou maior desativação quando as mulheres viam fotos de seus cachorros, ao invés de maior ativação quando viam fotos de seus próprios filhos, como era esperado.
      • Ao verem imagens dos próprios filhos, as vias relacionadas aos neurotransmissores dopamina, ocitocina e vasopressina, críticas para recompensa e afiliação, foram ativadas. Estas, porém, não foram ativadas quando as mulheres viram as fotos de seus cães.
      • Na análise comportamental, feita a partir do ranking das fotos, as mulheres reportaram agradabilidade e agitação/excitabilidade tanto para suas crianças quanto para seus pets, mas para a excitabilidade houve uma diferença maior entre seus filhos e as crianças desconhecidas do que entre seu cachorro e um cachorro desconhecido.
      • Também na análise comportamental, a pontuação para agradabilidade em relação ao próprio cachorro foi positivamente correlacionada à auto avaliação do apego ao pet. Ou seja, quanto maior a nota que a mulher dava ao seu apego ao pet, maior era a pontuação de agradabilidade ao ver a foto do animal.

 

 

E o que a gente pode tirar disso?

 

      • Uma forte e positiva característica desse estudo é o desenho dentre participantes. E o que raios isso quer dizer? Quer dizer que em cada condição (primeira fase na moradia e segunda fase da ressonância magnética funcional) participaram os mesmos sujeitos (foram as mesmas mulheres, mesmas crianças e mesmos cachorros) e eles foram seus próprios controles experimentais. E o que isso tem de bom? Quando temos as mesmas pessoas em todas as situações experimentais, controlamos variáveis de confusão interindividuais, ou seja, diminuímos a possibilidade de confundir variáveis. Se fossem pessoas diferentes em cada grupo, por exemplo, poderíamos atribuir as diferenças nos resultados à diferenças individuais entre os sujeitos participantes, e não às variáveis que estão sendo medidas: a função cerebral e comportamentos. Logo, esse é um bom modelo de delineamento experimental para próximas pesquisas parecidas.
      • Segundo os autores, a maior ativação do giro fusiforme (relacionado ao processamento e reconhecimento visual) às imagens dos cães das participantes provavelmente se deve à dependência dos sinais visuais e não aos verbais na comunicação homem-animal. Faz todo o sentido, nossa comunicação com os cães é em grande parte visual.
      • As diferenças entre a atividade cerebral para imagens de crianças e cães são bastante instigantes e segundo os autores, devem refletir a variação do curso evolutivo, assim como a função desses relacionamentos. Vale a pena ficarmos atentos para outras pesquisas nesse sentido, ainda há muito o que se descobrir!
      • Apesar do pequeno grupo amostral do estudo, que faz com que os resultados não se apliquem necessariamente à outros indivíduos, esses sugerem que existe uma rede cerebral comum, ativada tanto quando mães veem imagens de suas crianças quanto quando veem imagens de seus cachorros.
      • Mais pesquisas precisam também avaliar a generalização dos resultados de acordo com outros fatores como os pais, pais com filhos adotados, outras espécies animais (!), etc.
      • Mais pesquisas também precisam avaliar se esses padrões de ativação cerebral são explicados pelas funções emocionais e cognitivas que envolvem os relacionamentos homem-animal, adicionando medidas fisiológicas e comportamentais ao desenho do estudo.
      • Como sempre na ciência, devemos tomar cuidado com as interpretações e implicações – cada estudo é apenas mais uma peça no quebra-cabeça. Em relação à esse estudo devemos ter atenção aos seguintes pontos:
        • não é possível determinar se os resultados observados são relacionados à formação ou à manutenção do laço emocional, já que o estudo foi transversal (o estudo foi efetuado em um determinado instante de tempo, e não ao longo do tempo, como um acompanhamento das mulheres-crianças-cachorros),
        • apesar de terem sido incluídas apenas mães que indicaram ter uma relação saudável com seus filhos, não foram efetuados testes validados acerca do apego pai-filho,
        • o grupo de mulheres/tutoras de cachorros participante do estudo foi bastante homogêneo, o que aumentou o poder de detectar os efeitos criança versus cachorro, mas ao mesmo tempo diminuiu o poder de detecção da relação entre ativação cerebral e apego devido à gama restrita de relacionamentos.
        • as ressonâncias magnéticas não foram efetuadas com todas as mulheres no mesmo período do ciclo menstrual, o que já é comprovado pela literatura científica, afeta a ativação das áreas cerebrais relacionadas à recompensa.

 

Com certeza este estudo é um marco, até porque os pesquisadores líderes são médicos psiquiatras, abrindo as portas para a aceitação e respeito à relação homem-animal em um campo ainda avesso à essa visão. Além disso, as descobertas poderão auxiliar na criação de hipóteses que eventualmente fornecerão explicações para as complexidades subjacentes ao relacionamento homem-animal. Aguardemos os próximos capítulos!

O artigo original: Stoeckel LE, Palley LS, Gollub RL, Niemi SM, Evins AE (2014) Patterns of Brain Activation when Mothers View Their Own Child and Dog: An fMRI Study. PLoS ONE 9(10): e107205. doi:10.1371/journal.pone.0107205
Ele pode ser encontrado na íntegra neste link: http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0107205

 

Referências bibliográficas:

(1) Thalmann O, Shapiro B, Cui P, Schuenemann VJ, Sawyer SK, et al. (2013) Complete mitochondrial genomes of ancient canids suggest a European origin of domestic dogs. Science 342: 871–874. doi: 10.1126/science.1243650

(2) Shipman P (2010) The animal connection and human evolution. Current Anthropology 51: 519–538. doi: 10.1086/653816

(3) Ainsworth MD (1989) Attachments beyond infancy. Am Psychol 44: 709–716. doi: 10.1037//0003-066x.44.4.709

(4) Bowlby J (1958) The nature of the child’s tie to his mother. Int J Psycho-Anal 39: 350–373.

(5). Kurdek LA (2009) Pet dogs as attachment figures for adult owners. J Fam Psychol 23: 439–446.

(6) Horn L, Huber L, Range F (2013) The importance of the secure base effect for domestic dog – evidence from a manipulative problem-solving task. PLoS One

(7) Prato-Previde E, Custance DM, Spiezio C, Sabatini F (2003) Is the dog-human relationship an attachment bond? An observational study using Ainsworth’s strange situation. Behaviour 140: 225–254.

(8) Palmer R, Custance D (2008) A counterbalanced version of Ainsworth’s Strange Situation Procedure reveals secure-base effects in dog-human relationships. Applied Animal Behaviour Science 109: 306–319.

(9) Nagasawa M, Kikusui T, Onaka T, Ohta M (2009) Dog’s gaze at its owner increases owner’s urinary oxytocin during social interaction. Horm Behav 55: 434–441.

(10) Miller SC, Kennedy C, Devoe D, Hickey M, Nelson T, et al. (2009) An Examination of Changes in Oxytocin Levels in Men and Women Before and After Interaction with a Bonded Dog. Anthrozoos 22: 31–42.

(11) Handlin L, Hydbring-Sandberg E, Nilsson A, Ejdeback M, Jansson A, et al. (2011) Short-Term Interaction between Dogs and Their Owners: Effects on Oxytocin, Cortisol, Insulin and Heart Rate-An Exploratory Study. Anthrozoos 24: 301–315.


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