Os segredos dos cachorros – uma introdução

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Meu norte neste blog sempre será a ciência, os conhecimentos testados através de uma metodologia clara, objetiva e passível de replicação. Logo, julguei importante falar um pouco mais sobre esse recente “boom” de estudos sobre esse sujeito tão particular: o cachorro. Sim, o mesmo peludo bagunceiro que você tem em casa está sendo minuciosamente investigado por pesquisadores em todo o mundo! De algumas poucas décadas para cá inúmeras universidades têm se dedicado à investigação de como os cachorros pensam e esse pequeno ensaio científico que escrevi tenta explicar a ponta desse iceberg porque [highlight color=”yellow”]essa[/highlight] espécie. O ensaio foi dividido em algumas partes, que serão publicadas semanalmente aqui no blog. O post de hoje é uma introdução. Espero que gostem!

 

O cão como objeto de estudo

 

Os cães domésticos são, em muitos aspectos, uma espécie animal ímpar (1). De acordo com recentes análises genéticas e antropológicas, eles têm estado sobre a domesticação humana por algo na ordem de catorze a cem mil anos (diz-se até 135 mil anos, para domesticação não intencional) – há mais tempo do que qualquer outra espécie doméstica (2). Teorias sobre a domesticação da espécie são muitas, mas todas reforçam que foi um processo longo e cheio de altos e baixos.

Segundo Savalli e Ades (3) – dois dos nomes mais importantes para a área do comportamento animal brasileira – a partir do momento em que os primeiros lobos (ou ancestrais comuns aos lobos) se aproximaram das aldeias ou agrupamentos humanos, e desde que começaram a ser aceitos e a ocuparem posições de interesse humano (por exemplo, de guarda) pode ter iniciado o processo de domesticação; em parte espontâneo e em parte dirigido por práticas de seleção e acasalamentos intencionais.

Os regimes de seleção artificial que foram utilizados com cães são muitos e variados, mas na maioria deles havia uma intensa interação social com humanos (1). É possível que cães possam ter desenvolvido alguma predisposição especial para interagirem e se comunicarem com humanos (5, 6).

Segundo Hare et al. (7), como resultado do processo de domesticação, alguns aspectos das habilidades sócio cognitivas de cães convergiram, dentro dos limites filogenéticos da espécie, com aqueles dos humanos. Isso deve ter ocorrido através do processo filogenético da enculturação, similar de certa maneira ao processo ontogenético da enculturação experimentado por alguns indivíduos primatas não-humanos criados por humanos (8).

Miklósi e Topál (9) afirmam que cães e humanos evoluíram juntos, de maneira que as capacidades sociais típicas humanas se materializaram no cão, indicando, então, que a domesticação sozinha não é capaz de explicar as habilidades sociais altamente desenvolvidas dos cães. Miklósi et al. (10) acreditam que certos achados, como a resposta espontânea à várias formas de gestos e pistas humanas e a fácil generalização de novas formas de comunicação visual, implicam que os cães realmente possuem algum nível de entendimento referencial das pistas.

Uma consequência das duas espécies geneticamente distintas terem sido modeladas por pressões seletivas similares (11), e da intensa coabitação entre as duas é a habilidade dos cães em imitar alguns comportamentos vistos como unicamente humanos, como o reconhecimento o estado de atenção dos outros (12).

Sabemos que cães são especialmente habilidosos na compreensão dos gestos comunicativos dos humanos (13). Se confrontados com uma situação na qual não foram informados, sobre a localização de um pedaço de comida, por exemplo, eles podem encontrar o alimento com sucesso se um humano aponta, olha fixamente ou apenas lança um olhar em direção ao local correto aonde ela se encontra (14).

Macacos humanóides (como são denominados os grandes primatas da super família Hominoidea: chimpanzé, bonobo, gorila, gibão e orangotango) parecem não utilizar gestos demonstrados por humanos em um contexto comunicativo cooperativo tão facilmente quanto um cão, se as duas espécies forem diretamente comparadas (7, 15).

Além disso, estudos têm mostrado que as habilidades dos cães não refletem simplesmente uma capacidade geral dos canídeos (13). Lobos, os parentes vivos mais próximos dos cães, não utilizam gestos de apontar fornecidos pelos humanos na mesma extensão que os cães, mesmo se criados sob condições idênticas (7, 16, 17), a não ser que tenham experienciado certo período de aprendizagem ou foram especialmente treinados (por exemplo com o uso do clicker) (12, 18).

Finalmente, existem evidências sugerindo que o extenso aprendizado durante a ontogenia não pode, isolado, explicar as habilidades dos cães neste domínio. Filhotes de cães seguem o apontar de humanos desde seis semanas de idade, mesmo quando esse gesto requer que eles se movam para longe da mão do humano (7, 19).

Em conjunto, essas evidências sugerem que a prontidão dos cães em receber e agir a partir da comunicação de humanos talvez tenha origem em sua relativamente longa história evolutiva ao lado dos humanos (16; 11; 20).

A grande maioria dos estudos em relação à evolução da cognição social partiu dos estudos com crianças e primatas não humanos (21, 12). Primatas humanos e não-humanos eram o foco principal nos estudos de percepção do olhar e de habilidades relacionadas, apesar de os primatas não serem os únicos a viverem em sistemas sociais sofisticados que se baseiam nos sinais visuais (22).

Os últimos 20 anos presenciaram o ressurgimento da pesquisa sobre o comportamento dos cães domésticos (12) e, especialmente nos últimos anos, o foco de muitos desses estudos experimentais têm sido sobre cognição social (23) e têm realmente revelado algumas complexas habilidades sócio-cognitivas dos cães (1).

Bibliografia consultada:

 

(1) Call J., Bräuer, J., Kaminski, J., Tomasello, M., 2003. Domestic dogs (Canis familiaris) are sensitive to the attentional state of humans. Journal of Comparative Psychology 117 257-263.

(2) Vilà , C., Savolainen, P., Maldonado, J. E., Amorim, I. R., Rice, J. E., Honeycutt, R. L., et al. 1997. Multiple and ancient origins of the domestic dog. Science 276, 1687–1689.

(3) Savalli, C., Ades, C., 2011. Diálogos entre cães e pessoas: uma comunicação especial. Anais do XXIX Encontro Anual de Etologia. Uberlândia: Sociedade Brasileira de Etologia.

(5) Miklósi, Á., Polgárdi, R., Topál, J., Csányi, V., 1998. Use of experimenter-given cues in dogs. Animal Cognition 1, 113–122.

(6) Mitchell, R., Thompson, S., 1986. Deception in play between dogs and people. In R. Mitchell, N., Thompson, Deception: Perspectives on human and nonhuman deceit, 193– 204. Albany, NY: SUNY Press.

(7) Hare, B., Brown, M., Williamson, C., Tomasello, M., 2002. The domestication of social cognition in dogs. Science 298, 1634-1636.

(8) Tomasello, M., Call J., 1997. Primate Cognition. Oxford Univ. Press, Oxford.

(9) Miklósi, Á., Topál, J., 2005. Is there a simple reason for how to make friends? Trends in Cognitive Sciences 9, 463-464.

(10) Miklósi, Á., Topál, J., Csányi, V., 2004. Comparative social cognition: what can dogs teach us. Animal Behavior 67, 995-1004.

(11) Hare, B., Tomasello, M., 2005. Human-like social skills in dogs? Trends in Cognitive Science 9, 405-454.

(12) Udell, M., Wynne, C., 2008. A review of domestic dogs’ (Canis familiaris) human-like behaviors: or why behavior analysts should stop worrying and love their dogs. Journal of the Experimental Analysis of Behavior 89, 247-261.

(13) Kaminski, J., Neumann, M., Bräuer, J., Call, J., Tomasello, M., 2011. Dogs, Canis Familiaris, communicate with humans to request but not to inform. Animal Behavior 82, 651-658.

(14) Miklósi, Á., Soproni, K., 2006. A comparative analysis of animals’ understanding of the human pointing gesture. Animal Cognition 9, 81-93.

(15) Bräuer, J., Kaminski, J., Riedel, J., Call, J., Tomasello, M., 2006. Making inferences about the location of hidden food: social dog, causal ape. Journal of Comparative Psychology 120, 38-47.

(16) Miklósi, Á., Kubinyi, E., Gacsi, M., Viranyi, Z. & Csanyi, V., 2003. A simple reason for a big difference: wolves do not look back at humans but dogs do. Current Biology 13, 763-766.

(17) Virányi, Z., Gácsi, M., Kubinyi, E., Topál, J., Belényi, B., Ujfalussy, D., Miklósi, Á 2008. Comprehension of human pointing gestures in young human-reared wolves (Canis lupus) and dogs (Canis familiaris). Animal Cognition 11, 373-387.

(18) Gácsi, M., Gyori, B., Viranyi, Z., Kubinyi, E., Range, F., Belenyi, B., Miklósi, Á., 2009. Explaining dog wolf differences in utilizing human pointing gestures: selection for synergistic shifts in the development of some social skills. PLoS One, 4, 6.

(19) Riedel, J., Schumann, K., Kaminski, J., Call, J., Tomasello, M., 2008. The early ontogeny of humane-dog communication. Animal Behaviour 75, 1003-1014.

(20) Udell, M., Dorey, N., Wynne, C., 2010. What did domestication do to dogs? A new account of dogs’ sensitivity to human actions. Biological Reviews 85, 327-345.

(21) Zuberbühler, K., Byrne, R. W., 2006. Social cognition. Current Biology 16, 18.

(22) Virányi, Z., Topál, J., Gácsi, M., Miklósi, Á., Csányi, V., 2004. Dogs respond appropriately to cues of humans’ attentional focus. Behavioural Processes 66, 161-172.

(23) Gácsi, M., Miklósi, A., Varga O., Topál, J., Csányi, V., 2004. Are readers of our face readers of our minds? Dogs (Canis familiaris) show situation-dependent recognition of human’s attention. Animal Cognition 7, 144-153.


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2 Comments
  • Sibelle

    Responder

    Olá… minha cadela entrou no primeiro cio aos 10 meses e teve uma mudança significativa de comportamento. Tenho outro cão com 1 ano e 2 meses e gosta muito de brincar com ela, ele está castrado e ela não. Ela gosta muito de brincar cmg e com meu marido, porém 90% das vezes ela ignora ele que gosta muito de brincar com ela. Esta mudança de comportamento é normal? ou tem alguma forma de estimular ela.

    obrigada.

    • Pet Anjo

      Olá Sibelle, tudo bem?
      Muito obrigada pelo comentário. Esperamos que goste do conteúdo do blog e que a ajude no relacionamento com seus peludos.
      Sobre a sua situação, é difícil avaliar pois teríamos que conhecer melhor seus cachorros, entender melhor as especificidades do caso. No caso das mudanças após o primeiro cio, podem ser sim devido à maturidade sexual, mas também podem ter sido uma coincidência com outros fatores. A castração para ela provavelmente ajudará no relacionamento entre ambos assim como é muito recomendado devido à problemas de saúde mais tarde. Teríamos que entender melhor como o seu outro cachorro macho brinca, muitos cães têm um modo de brincar muito exagerado, por exemplo, que acabam fazendo com os outros cães não gostem ou acietem a brincadeira. Recomendamos que ofereça passeios a ambos, pois com certeza ajudará na interação, e busque por ajuda profissional, de educadores de cães com boa formação.
      Um abraço,
      Time Pet Anjo

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