VOCÊ SABE O QUE OS ANIMAIS PRECISAM PARA TEREM UMA VIDA BOA?

Atualmente nós, médicos veterinários, já sabemos muito acerca do bem estar físico (orgânico) dos animais. Sabemos formular rações com alto índice nutricional, sabemos que precisam de água limpa em quantidade, exercício físico, vacinações, visitas regulares ao médico veterinário (ou, no caso de animais de produção – bovinos, ovinos, etc – de visitas regulares do médico veterinário) e etc. Sim, estes são importantes itens que todos os tutores devem ter em mente se desejam manter seus animais fortes e saudáveis, sendo eles de qualquer espécie animal.

Porém, e quanto à saúde mental de seu companheiro ou de seu rebanho? Você sabe o que eles precisam para serem felizes e satisfazerem suas necessidades psicológicas?

* Artigo escrito pela Médica Veterinária Carolina Rocha. Caso queira citar ou divulgar este artigo, por favor, entre em contato por e-mail antes de faze-lo. Não copie o texto sem autorização, plágio é crime! *

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Desde a década de 60 fortificou-se o movimento em defesa do bem estar animal, especialmente na Europa. Este movimento teve seu crescimento impulsionado pelo Brambell Report (HMSO London, ISBN 0 10 850286 4) relatório desenvolvido pelo governo inglês tendo em vista os métodos intensivos de criação de animais de produção. Nessa época (e infelizmente não apenas nessa época), havia na Inglaterra um enorme número de fazendas de produção intensiva, por exemplo de ovos, que mantinham um número gigantesco de aves, para abate e produção de ovos, “acumuladas” em gaiolas minúsculas, ou seja: em terríveis condições de bem estar. Imagino que seriam visões semelhantes às que alguns documentários atuais apresentam (sensacionalistas ou não: papo para outra discussão, muito válida com certeza).

Pois bem, em 1965 o comitê Brambell listou as liberdades que um animal deveria ter, eram elas: “to stand up, lie down, turn around, groom themselfs and stretch their limbs” (de levantar, deitar, se virar, se limpar e esticar seus membros). A partir deste momento diversos comitês surgiram na Inglaterra visando o melhoramento e implementação das novas regras.

Então, apenas em 1979 surgiu a famosa lista das cinco liberdades (conhecida como “Five Freedoms”). Lembrando que para essa visão, o bem estar inclui tanto o estado físico quanto o mental, implica em adaptabilidade (“fitness”) e a sensação de bem estar dos animais. Além disso, é ressaltado que qualquer animal que é mantido pelos homens deve, no mínimo, ser protegido de qualquer sofrimento desnecessário.

São elas as famosas cinco liberdades que os animais deveriam ter. Notem que os 3 primeiros itens se referem mais explicitamente ao bem estar físico e os 2 últimos ao bem estar mental.

–       “Freedom from hunger and thirst” (liberdade de fome e sede) – através do acesso livre à água limpa e a dieta que mantenha boa saúde e vigor.

–        “Freedom from discomfort” (liberdade de desconforto) – fornecendo ambiente apropriado.

–       “Freedom from pain, injury, or disease” (liberdade de dor, injúria, ou doença) – através da prevenção ou do pronto diagnóstico e tratamento.

–       “Freedom to express normal behavior” (liberdade para expressar comportamento normal) – fornecendo espaço, ambiente e companheirismo.

–       “Freedom from fear and distress” (liberdade de medo e experiências mentais conscientes).

Essa liberdade, presente em todos os itens da lista, pode ser bastante difícil para nós humanos entendermos, e principalmente para levarmos à prática no dia-a-dia: ela não é óbvia. Superficialmente a liberdade dos animais pode parecer muito diferente da nossa (os que acreditam na superioridade humana com certeza continuarão acreditando nisso), porém se olharmos com cuidado e fizermos em experiência empática, nos colocando em seu lugar, ela é muito parecida com a nossa.

Temple Grandin, uma das mais importantes e reconhecidas especialistas em bem estar animal (como sempre digo: minha “ídola”), oferece ótimos exemplos. Acerca da liberdade do medo, Grandin lembra que muitos fazendeiros e tratadores de zoológicos pensam que apenas devido aos predadores não terem acesso ao animal, ele não sentirá medo (o animal, por exemplo, que está confinado em um estábulo o qual predadores não têm acesso). Mas lembra que não é assim que o medo funciona: “se você sentir medo apenas quando você está cara-a-cara com o animal que irá te matar e te comer, será muito tarde”.

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Uma galinha precisa ter um local protegido e escondido para botar seus ovos, mesmo que ela viva em uma fazenda comercial, dentro de um galpão em que nenhum predador poderá entrar. Durante toda a sua história evolutiva a galinha evoluiu para proteger seus ovos, escondê-los é o que dá a liberdade em relação ao medo, não viver em um galpão para nós visto como “protetor”.

Quanto à liberdade para expressar o comportamento normal (por normal referimo-nos ao comportamento típico da espécie), muitas vezes torna-se um grande desafio prático, por diversos motivos. Para um cão, por exemplo, um comportamento normal é caminhar vários quilômetros por dia, o que é, eu diria, impossível e perigoso nos dias de hoje. No caso dos gatos, o arranhar, que pode dificultar bastante a relação com seus tutores. Para certos animais algumas condições ambientais precisam ser satisfeitas para que possam procriar, etc.

O que pode ocorrer, e infelizmente ocorre frequentemente, é a compreensão errada ou a simples falta de pesquisas acerca do que é um comportamento normal da espécie. A disseminada idéia do “macho alfa” dos cães é um triste exemplo de informação mal investigada e amplamente divulgada, mas que detalharei em outro post. Nós humanos tendemos a acreditar que o que é bom para nós é naturalmente bom para os animais. Isto não é completamente verdade.

Em relação à liberdade para expressar o comportamento normal, qual é o nosso papel como médicos veterinários, treinadores e tutores? Eu diria que o principal é descobrir formas alternativas, ou como diríamos, comportamentos substitutos, que irão manter o cão feliz e estimulado. Para todos os comportamentos externos existem emoções subjacentes, e estas precisam ser supridas.

Punir o cão, por exemplo, por destruir todas as plantas do lar, poderá até fazer com que o animal não mais destrua mais as plantas, mas irá com certeza trazer graves consequências para todos os envolvidos. Fará com que o animal sinta medo, frustração e possivelmente raiva, não substituirá esse comportamento indesejado por outro comportamento e trará graves consequências a médio e longo prazo.

Precisamos substituir a resposta indesejada por outra que irá então suprir suas necessidades físicas e mentais, ou seja, que possibilitará ao animal expressar suas emoções, sem criar conflitos com a vida dos tutores e trazendo bem estar ao animal.

Em alguns criatórios de animais, tanto de produção quanto silvestres (em alguns países) essas cinco liberdades são seguidas a risca, existem profissionais qualificados em bem estar animal direcionando mudanças e fiscalizando a manutenção das medidas preventivas. Porém, no Brasil ainda existem muitos (por muitos eu quero dizer muitos mesmo!) locais em que os proprietários sequer sabem o que é bem estar e os animais são tratados como simples máquinas de acúmulo de dinheiro (e sofrimento). Mas lembremos que existem sim ótimos exemplos em nosso país!

Porém, enviesando para a área dos animais de companhia (cães, gatos, aves, roedores, etc), percebemos que no mundo todo há uma falta de preocupação ou acompanhamento real dessas cinco regras do bem estar animal. Mesmo famílias que amam seus companheiros animais, muitas vezes não conhecem as necessidades mentais e físicas deles. Parte dos problemas comportamentais de cães e gatos, por exemplo, podem ser atribuídos a animais que são adotados e deixados sozinhos em casa durante grande parte do dia, enquanto os tutores estão trabalhando ou estudando, sem qualquer vazão para que o animal possa exibir seu repertório de comportamentos normais.

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Apenas aplicando as cinco liberdades do bem estar animal aos nossos animais de companhia, o bem estar físico e mental já poderá ser melhorado dramaticamente.

* Artigo escrito pela Médica Veterinária Carolina Rocha. Caso queira citar ou divulgar este artigo, por favor, entre em contato por e-mail antes de faze-lo. Não copie o texto sem autorização, plágio é crime! *

Fontes:

* Farm Animal Welfare Council – www.fawc.org.uk

* Temple Grandin & Catherine Johnson- Animals Make Us Human, Creating The Best Life For Animals – 2009.

* Temple Grandin & Mark Deesing – Genetics and Animal Welfare – 1999.


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