Desde o início da profissionalização dos cuidadores de pets como uma indústria, muitos treinadores têm baseado seus métodos de “correção” na teoria da dominância em cães. Tal dominância era feita a partir de um treinamento baseado em um pensamento de “matilha” – sempre um tinha que ser o líder, e o dominante afirma a sua dominância usando agressividade sobre os demais.

Isso aconteceu porque muitas pessoas que trabalhavam e moravam no campo viam seus cachorros simplesmente como um lobo domesticado. Alguém, algum dia, foi avisado de que teria que treinar seu cachorro (por mais calmo e domesticado que ele fosse) como um lobo – teoria essa que foi perpetuada por muita gente e por uma série de livros de treinamento caninos. Ainda hoje, livros e programas de televisão com base nesta teoria (bem antiga e nada funcional rs) ainda são populares e causam uma certa confusão entre os tutores. Afinal, como eles devem treinar seu cachorro? Devem tentar assegurar a sua dominância em cães por serem “o líder?”. Dizer que esse tipo de treinamento deve ser aplicável aos cachorros dos dias atuais está super incorreta – não importa que o seu cachorro seja um descendente direto do lobo.

Esse tipo de treinamento pela dominância em cães resulta em uma série de suposições erradas:

wolf play

  • O comportamento dos cachorros são quase como uma mímica dos lobos.
  • Os lobos cinzentos formam grupos com base em uma hierarquia estruturada e competem entre si para um deles se tornar o ‘alfa’. Competem afirmando sua dominância sobre outros lobos de forma agressiva e, portanto, os cães vão fazer o mesmo.
  • Mesmo que o cachorro viva com os seres humanos, ele deverá sempre ser um membro de uma matilha, ou seja, o tutor e sua família têm que ser uma “posição” mais elevada do que a do cachorro.

O mais estranho é que ninguém tinha parado para se questionar sobre funcionalidade desse método até então. Mas, de uns anos para cá, comportamentalistas e estudiosos estão se perguntando sobre a relevância de treinar um cachorro como se ele ainda fosse membro de uma matilha. Ao mesmo tempo, pesquisadores que estudam os lobos na natureza têm visto que matilhas de lobos estão funcionando de uma maneira bem diferente da vista antes. Estudos e conhecimentos recentes estão fazendo com que nós, tutores de pets, nos quetionemos se estamos certo por acharmos que o nosso cachorro é igual ao seu primo distante, o lobo.

 

A história da dominância

Muito do que nós pensávamos que sabíamos sobre o comportamento dos lobos de 20 a 40 anos atrás veio de estudos baseados em estudos sobre lobos em cativeiro. Ao contrário dos valores naturais das famílias (uma “matilha livre”), os lobos em cativeiro competem entre si para ganharem status – quanto maior for o status em jogo, maior a competição vai ser. Uma matilha presa em cativeiro terá uma enorme quantidade de lobos de diferentes idades e gênerWolf Packos, vindos de lugares diferentes. Nesse caso, é muito provável que vá ter uma competição entre os membros da matilha, principalmente durante a época de acasalamento. Nesse caso, obviamente, vai existir um macho e uma fêmea dominantes e muitas brigas entre os lobos mais novos para subirem de status.

Dentro desse cativeiro, os lobos (que são manipulados e organizados pelos homens) não poderão expressar muitos de seus comportamentos naturais e de sair do grupo para acharem um par naturalmente, como fariam na natureza. Seguindo essas observações das matilhas, os pesquisadores da época pensaram que: já que os cachorros são descendentes dos lobos, era assim que eles iriam agir. Alimentando a ideia de que se os lobos, quando têm a chance, vão tentar subir seu status, os cachorros vão tentar fazer o mesmo só que aumentar o status em relação a seu tutor. Para prevenir que isso acontecesse, os tutores começaram a ser “o líder” “o dominante” “alfa”.

Hoje em dia, os líderes fêmea e macho da matilha não são mais chamados de “alfa” ou “dominante”. Ao invés disso, eles são chamados de “pais” ou “casal principal”. Esse novo projeto de dominância, deve ser visto, mais ou menos, como nós humanos vemos um casal criando um filho. Os primeiros filhotes desses pais vão amadurecer e desenvolver-se sob a orientação deles. No ano seguinte, quando uma segunda ninhada é produzida, os líderes continuam sendo os pais, e os irmão mais velhos são naturalmente dominante sobre os mais novos (apenas como irmãos e irmãs mais velhos). Assim como em uma família humana, irmãos guiam e obedecem os irmão, mas não existe nenhuma batalha para tentar ganhar a liderança da família – os pais continuam sendo os líderes principais e os irmãos mais velhos carregam apenas uma responsabilidade sob os mais novos. Lobos, agora, trabalham juntos durante a caça, cuidando dos filhotes da matilha e defendendo seu território.

Mas e quanto a dominância nos cães de hoje em dia?

Os cachorros, em geral, não são criados mais para trabalhar naturalmente como uma equipe como lobos fazem, nem não são mais capazes de formar matilhas estáveis como lobos fazem. A domesticação do cachorro mudou de tantas maneiras (comportamental e visual) que eles perderam a capacidade de se defender por si mesmos dentro de um grupo da mesma espécie. Disputas menores, muitas vezes pode se transformar em uma enorme briga entre os pets, já que a capacidade de comunicação foi mal compreendida ou perdida completamente. Imagine um Border Collie altamente ansioso para brincar com um Dachshund (famoso salsichinha) que tem pernas curtas e um corpo longo. Por causa de sua morfologia, o Dachshund pode ser incapaz de responder a essa ansiedade, o que pode ser muito confuso para o Collie. Esta é a antítese do que se passa em uma matilha de lobos selvagens.

Um lobo pode expressar cerca de 60 expressões faciais diferentes, enquanto um pastor alemão, só pode expressar 12, e o pug ainda menos.

Se aceitarmos um cachorro pele que ele é – um animal domesticado, com diferentes comportamentos e motivações do que um lobo selvagem – estaremos um passo a frente para considerar uma teoria de “dominância” mais atual e baseada no que nós sabemos sobre o comportamento das matilhas de lobos e dos cachorros como pets hoje em dia.

Um cachorro deve fazer por merecer um petisco ou seu brinquedo favorito. Se o tutor o maltrata para tentar pegar esse brinquedo dele, ele tentará (e possivelmente conseguirá) morder o tutor e assim, o tutor recolherá a mão rapidamente. Aí que está o perigo: o cachorro, mesmo que por um breve momento, se sente em posse do brinquedo e percebeu que mordendo o seu tutor, ele conseguirá o que quer e, provavelmente, irá repetir esse ato para as próximas vezes. Então, mexer com o que está em posse do cachorro e uma agressão que ele aprendeu a ter, possa ser, talvez, do que se trata a tal da dominância em cães.

 

A família é a nova matilha.

 

“É da natureza dos cachorros, formarem matilhas” é uma das frases mais ouvidas sobre os cães, tão ouvida que acabou sendo levada como verdade. Ninguém questiona essa frase. Você a vê em todos os lugares – tvs, rádios, revistas, blogs pets – . Mas, assim como a maioria das coisas que lemos sobre a relação cão-tutor e até mesmo cão-cão, a afirmação de que cachorros formam matilhas por ser da sua natureza, precisa ser analisada mais a fundo.

Uma coisa que todos já sabemos é que se um cachorro não pode fazer parte de uma matilha com outros cachorros, nós humanosfamily dog tomamos esse lugar e nos tornamos a sua matilha familiar. Por exemplo, nós usamos manada quando temos um conjunto de vacas e rebanho quando temos um conjunto de ovelhas. Mas tente juntar esses dois grupos, não temos um grupo específico, apenas um grupo de vários animais. O mesmo pode ser dito sobre nós e nossos pets, juntos somos apenas um grupo social de animais que vivem em harmonia. Pensando por esse lado então, não seria mais apropriado usarmos o termo “matilha” como um sinônimo de grupo social, ao invés de o associarmos a uma matilha de lobos lutando por dominância.

Todos nós já vimos alguém ma rua tentando passear com seu cachorro, mas ele não parava de puxar a guia e latir para algum outro cachorro que vinha pela rua. Isso é o cachorro dizendo para o outro que está vindo, para não se aproximar – curioso é que esse mesmo cachorro quando for solto da guia, provavelmente evitará fazer contato com outros cachorros. Em outras palavras, esse cachorro não gosta da companhia de outros cachorros, mas então, como isso se encaixa na afirmação de que cachorros têm a formação de matilhas na sua natureza? Cachorros não somente animais que formam matilhas para sobreviverem – e nós não devemos tratá-los como tal.

Por mais que a maioria não ponha rótulos na sua relação com seu pet, muitas pessoas ainda fazem isso. Pensar no ser humano como o “alfa” é muito ultrapassado e cientificamente incorreto. “Líder da matilha” está igualmente errado, uma vez que já foi provado que animais domésticos não formam matilhas para sobreviver – eles formam sociedades com os seus tutores e suas famílias – então não tem matilha alguma para alguém liderar.

Pais não são dominantes sobre seus filhos, eles não forçam regras, eles ensinam. Pensando que nossos pets, hoje em dia, são nossos filhos, por que então pensar diferente? Como tutores responsáveis, não tem motivo algum para sermos “líderes” ou “dominantes”. Devemos guiá-los de filhotinhos para adultos (assim como faríamos com crianças), promovendo socialização em local e tempo adequado. Outra coisa muito importante é aprendermos sobre eles, tanto quanto eles aprendem sobre nós, assim podemos entendê-los e melhorar nossa relação. Cães são parte da nossa família, não importa quantas patas, pêlos ou dentes eles tenham, somos do mesmo grupo social e devemos ensiná-los e, por consequência, aprender com eles.

 

Nossos passeadores se baseiam em igualdade, nada de dominância!

kenia

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